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Apaixonada por História assim como pela Educação Física e a cultura do movimento, decidi fazer da primeira postagem uma retrospectiva histórica da disciplina Educação Física.
Para uma melhor compreensão da disciplina é indispensável conhecer seu contexto histórico, o qual, ao longo dos anos, construiu estigmas à disciplina. Mas mais importante que conhecer seu contexto histórico, faz-se fundamental entender como anda sua realidade atual, quais são seus problemas e desafios.
Para isso, anexei partes que achei relevantes de meu trabalho de conclusão de curso (tcc), de forma que explicam cada fase da Educação Física. com base teórica de autores da área.


O início-   
                        DUALIDADE CORPO X MENTE


O ser humano por muito tempo viveu uma dicotomia, uma dualidade entre corpo e mente, de forma que a mente era supervalorizada e o corpo sofria estigma de objeto do ser (da razão). A educação corporal não acontecia devido a essa dicotomia que excluía o corpo. Segundo Bracth (1999, p.70).
O corpo como elemento deveria ser controlado. Para Bracth (1999, p.71), “[...] O papel da corporeidade na aprendizagem foi historicamente subestimado, negligenciado”, pois deveria ser educado e moldado de acordo com as necessidades sociais da época, onde o comportamento humano era sinônimo de comportamento corporal. Dessa forma ao compreender o ser humano como um ser motor, nos séculos XVIII e XIX, o corpo se torna foco de estudos científicos por meio das ciências biológicas. Segundo Bracth (1999, p. 73),O corpo não pensa, é pensado, o que é igual a analisado (literalmente, ‘lise’) pela racionalidade científica. Ciência é controle da natureza e, portanto, da nossa natureza corporal”. Foi nesse momento histórico que a educação física surge com o intuito de educar o corpo.
Século XVIII e a Revolução Industrial - A Educação Física/ Ginástica.

Segundo o Coletivo de autores (2009, p. 50), na Europa a partir do século XVIII, a sociedade é envolvida em uma nova concepção produtiva, a chamada Revolução Industrial (sociedade capitalista). Nesse momento o olhar para o ser humano é modificado e o homem passa a ser visto como força de trabalho para otimização da produção.  Baseado nesse pensamento a medicina, em conjunto com as autoridades do momento, introduzem ao “novo” meio social a perspectiva higienista, induzindo os trabalhadores a obterem hábitos saudáveis para cuidar da saúde do corpo e valorizar a moral, a fim de formarem indivíduos mais ágeis e fortes para trabalharem nas indústrias, visando, da mesma forma, a prevenção de acidentes. A educação física nesse momento é introduzida no meio educacional.
Quando a disciplina passa a ser concebida como conteúdo educativo, ainda no século XVIII, a educação física escolar é nomeada de ginástica, e esse foi, a priori, seu conteúdo curricular. Nesse momento a ginástica era composta por exercícios físicos padronizados universalmente, sendo praticados por soldados como forma de treinamento. Entretanto, tratando-se da escola, foi necessário pensar em novos métodos de ginástica. Surgem então, no século XIX, os diferentes métodos ginásticos com seus diferentes autores, o francês Amoros, o alemão A. Spiess e o sueco P.H. Ling. Autores que vieram a se tornar importantes nomes da Educação Física naquele período, contribuindo para o desenvolvimento dos indivíduos escolares:
A educação física ministrada na escola começou a ser vista como importante instrumento de aprimoramento físico dos indivíduos que, ‘fortalecidos’ pelo exercício físico, que em si gera saúde, estariam mais aptos para contribuir com a grandeza da indústria nascente, dos exércitos, assim como a prosperidade da pátria. (COLETIVO DE AUTORES, 2009, p. 52). 

Educação Física Higienista 

No Brasil, até a década de 1940, a educação física seguia o exemplo da Europa, pautada no método higienista, que buscava indivíduos saudáveis e livres de doenças, fazendo da disciplina um agente de saneamento público. Posteriormente, tem-se, no mesmo contexto, o método militarista. As aulas eram ministradas por instrutores militares que regiam a obediência, a disciplina, a eficiência dos movimentos e a submissão. A educação física nesse momento militarista não necessitava de uma fundamentação teórica por ser considerada uma disciplina essencialmente prática.
Educação Física Escolanovista

Após a Segunda Guerra mundial, a educação física adota um novo conceito de educação  baseado na Escola Nova, modelo de reforma educacional inspirado pelo norte americano John Dewey, que tinha como atributo uma escola democrática e priorizava o respeito e a individualidade dos alunos, fazendo aversão ao modelo anterior, assim:
O discurso predominante na Educação Física passa a ser: ‘A Educação Física é um meio de educação’. O discurso dessa fase vai advogar em prol da educação do movimento como única forma capaz de promover a chamada educação integral. [...] há uma passagem de valorização do biológico para o sócio-cultural embora a prática permanecesse praticamente inalterada. (DARIDO, 2011, p. 2).

           Educação Física Esportivista
Com o golpe militar de 1964 no Brasil, mais precisamente no período de 1969 a 1970, é feita uma associação entre educação física, esporte e saúde. A disciplina escolar passa a adotar o esporte como conteúdo único na escola. Houve um maior investimento no esporte por parte do governo que pretendia divulgar o nome do país internacionalmente e intencionava que a prática esportiva formasse pessoas apolíticas, ou seja, pessoas que lutassem por medalhas e não se envolvessem nos assuntos da política. Nesse sentido, Castellani Filho (apud DARIDO, 2011, p. 2) “analisa este período como uma tentativa do estado de reprimir os movimentos estudantis no sentido de desviar a atenção dos estudantes das questões de ordem sócio-políticas, contribuindo assim, para a construção do modelo de corpo apolítico”.
            Essa fase da educação física ficou conhecida como período esportivista, devido ao predomínio da influência do esporte. Desse modo, a disciplina adquire o sinônimo de técnica, e o que prevalece é a competição e o princípio do rendimento esportivo, ignorando as diferenças sociais e culturais dos alunos.
          
Educação Física- Surgindo as diferentes abordagens.
  Nos anos 1980, no Brasil, inicia-se uma política democrática e a educação física muda de foco buscando um contexto mais pedagógico. Antes sua prioridade era a ciência anátomo-fisiológica e, posteriormente, passa a ter um maior envolvimento com o contexto político-social, defendendo a criticidade da disciplina por meio da ciência, para colocá-la como conteúdo necessário e formador no currículo escolar. Daí em diante a educação física, adquire diferentes abordagens e, atualmente, coexistirem na área várias concepções, todas tendo em comum a tentativa de romper com o modelo mecanicista[1] fruto de uma etapa histórica recente, o qual traz consigo o estigma de que a disciplina é tão somente prática e não possui um conteúdo teórico relevante.  
            Quanto às várias abordagens observa-se em algumas:
[...] um enfoque mais psicológico (Psicomotricidade, Desenvolvimentista Construtivista e Jogos Cooperativos), em relação àquela com enfoque mais  sociológico e político (Crítico-superadora, Crítico-emancipatória,  Cultural, Sistêmica e aquelas contidas nos Parâmetros Curriculares Nacionais) e também biológico, como a da Saúde Renovada. (DARIDO, 2011, p. 24).

Essas novas abordagens passam a ampliar a visão da educação física e a criticar o modelo biológico voltado à técnica, antes tão priorizada pela área. Elas buscam a formação integral do aluno, não apenas voltada para o desempenho físico-esportivo e mecanização dos movimentos corporais, mas sim para um processo de reflexão acerca do movimento. A definição do objetivo da educação física é essencial pra quem atua ou pesquisa na área. As diversas abordagens contribuem para a definição do objetivo da disciplina, induzindo o profissional a repensar sua atuação e a colaborar para a melhora da aprendizagem dos alunos por meio da cultura corporal. Segundo Bracth (1999, p. 81) “[...] é fundamental entender o objeto da EF, o movimentar-se humano, não mais como algo biológico, mecânico ou mesmo apenas na sua dimensão psicológica, e sim como fenômeno histórico- cultural”.



[1] Segundo Bracth (1999, p. 73) “O corpo é alvo de estudos nos séculos XVIII e XIX, fundamentalmente das ciências biológicas. O corpo aqui é igualado a uma estrutura mecânica – a visão mecanicista do mundo é aplicada ao corpo e a seu funcionamento”.


REFERÊNCIAS      

BRACTH, Valter. A constituição das teorias pedagógicas da educação física. Cadernos Cedes, ano XIX, n.48, Agosto/1999. p. 69-88.
CASTELLANI FILHO,L. Pelos meandros da educação física. In: DARIDO, Suraya Cristina. Educação física na escola: questões e reflexões. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2011.
DARIDO, Suraya Cristina. Educação física na escola: questões e reflexões. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2011.
DARIDO, Suraya Cristina (org.).; BARROSO, A. L. R; BARROS, A. M; IMPOLCETTO, F.M. Educação física escolar: compartilhando experiências/. –São Paulo: Phorte,2011. 
DARIDO, Suraya Cristina ; RANGEL, Irene Conceição Andrade .(orgs). Educação Física na escola: implicações para a prática pedagógica.-2.ed. - Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2011.

SOARES, C. L; TAFFAREL, C. N. Z; VARJAL, E; FILHO, L.C; ESCOBAR, M. O; BRACTH, V. Metodologia do ensino de educação física. COLETIVO DE AUTORES. 2. ed.São Paulo: Editora Cortez, 2009. 

Espero ter contribuído, mesmo que de forma singela, para uma maior compreensão sobre a história da disciplina de Educação Física. Aproveito para frisar que a pesquisa é de grande necessidade para profissão.  Estudar e pesquisar sobre a origem da profissão de Professor de Educação Física nos ajuda a compreender alguns dos problemas atuais que enfrentamos, de forma a também a nos ajudar a buscar formas de solução desses problemas .

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